Quinta-feira, 5 de Setembro de 2013
COELHINHOS CAPUCHINHOS escreve Armando Pinto

 

Recordar  é viver

Chegados dias de afastamento dos raios solares de verão, em tempo de  aproximação à época outonal, caiem sobre nós já alguns efeitos de  transição ao Outono da vida, numa retrospetiva existencial, quando se  dá um reencontro de experiências outrora comuns, com o convívio de  antigos seminaristas - jovens de há umas dezenas de anos atrás e agora  homens de semblantes grisalhos. Vindo à ideia um sopro de recordações,  em tal período de transposição temporal, quais folhas a esvoaçar no  horizonte que se vai pondo atrás da linha do tempo, como folhas caídas  nesta estação d' ano.

 Para não abusar aqui do espaço e mais ainda da paciência de antigos  colegas, recuamos apenas num fugaz vislumbre a uma época que povoou  nosso ser. Naquele mundo com alma que em determinada fase da vida nos  preencheu intimamente.

 Eis assim o pensamento a voar até Gondomar, portões adentro e, como  pássaro da memória a pousar num ramo das árvores beirantes ao antigo  edifício seráfico. Assomara saudação de passagem ao Padre Vítor, que  nos acolheu nos primeiros tempos, a meio dos anos sessentas, mas a  vida continuara. Porém, nos momentos a revisitar, ainda se mantinha de  pé a ala da direita do edifício, embora desativado o velho dormitório  por cima da capela. Haviam passado os jovens estudantes a dormir do  outro lado, naquele anexo com entrada pelo lado dos balneários e do  tanque. Num ambiente cujas feições sentimos já diluídas na retina, mas  com algo sempre presente. Foi aí, já, que numa madrugada fria de  inverno, corria Fevereiro de 1969, todos sentimos o famoso terramoto  que atingiu elevado grau na escala respetiva. Ao primeiro sinal de  alarme, ouvindo tilintar contra os ferros das camas as placas de  folheta com os números de cada qual, pendentes nas cabeceiras, todos  desataram a correr porta fora, sem olhar a nada nem ninguém, num ver  se te avias até mais não... Sendo então que um amigo nosso, na pressa  e sem olhar a nada, deu de caras com a cabeça na armação da porta de  saída, com estrondo. Na algazarra imediata, parecia que outro abalo  acontecera. E, apinhados uns contra os outros, os pequenoos alunos que  ali ainda restavam, quedaram-se atónitos sem saber se haviam de  continuar ou ficar, ante a dúvida do que teria mais acontecido e qual  o maior perigo, afinal... até que fomos sacudidos pela chamada de  atenção de alguém preocupado, e então todos rumamos enfim a porto  seguro, à proteção do frei Domingos...

 Era esse frei, in illo tempore, um simpático personagem que, desde que  mudamos de poiso noturno, ficou a dormir no mesmo amplo dormitório,  com um biombo apenas a servir de separação e a manter respeito.

 Detendo assim ele, então, posição de encarregado e vigilante.

 Enquanto, nas horas de recreio e passeatas, mantinha com os rapazes um  fraterno convívio. E mais, com o autor destas linhas, por acaso, até  manifestava simpatia e amizade (analisando à distância, vendo que ele  mais tarde rumou a uma ordem contemplativa), talvez, naquele tempo  também, por sermos ambos de certo modo discretos e reservados, de  poucas palavras mandadas fora da boca.

 Ora o Frei Domingos Borges, de careca à mostra acima do capuz do  hábito, enquanto nos fazia companhia de passar tempo, nesse ínterim em  que aguardamos ao relento a evolução do tal tremor de terra ainda nos  sentidos, recorde-se, entre conversas de animação, lembrou-se de nos  dar uma boa nova: ia criar coelhos para, mais tarde, nos dar uma  arrozada! Mas tínhamos de o ajudar a dar de comer aos bichinhos,  apanhando erva e labrestos para eles medrarem, até que chegasse à  época dos exames e aí comermos tudo em grande refeição. Pois sim, nós  que andávamos algo desconsolados das papilas gustativas, já que a  comida do internato conventual não era grande coisa - mais parecia a  que se ouvia contar aos tropas - ficamos todos entusiasmados e, apesar  dos exames nos darem alguma ansiedade, desde logo passamos a desejar  que chegasse depressa tal proximidade ao final do ano letivo.

 Decorreram dias e noites a fio com a cabeça sempre a matutar naquilo,  parecendo que víamos diante de nós pedaços de coelho a boiar num arroz  apetitoso, quase a fugir pelo prato fora. Veio a Primavera e os dias a  crescerem, de permeio com aquecimento da temperatura meteorológica e  no estômago da rapaziada crescia água na boca. Até que chegou o dia,  ao anoitecer. Foram postas mesas debaixo das árvores, duma das  alamedas do espaço da feira regional que anualmente decorria na então  nossa quinta (como dizíamos); e sob a fresca daquele fim de dia,  enfim, houve lauto manjar. Não recordo já quantos coelhos eram, nem  faço ideia, mas não mais esquece tudo aquilo. Num epílogo que até  surpreendeu pois, deitada a comida aos pratos, tantos eram os  comensais para a quantidade proporcional dos coelhos, tocou a cada um  de nós um cibo só, um pequeno bocado a espreitar por entre o arroz  aguado. Contudo, olhando para nosso amigo simpático, o ar feliz do  Frei Domingos de Freitas Borges encheu-nos as medidas e saciou o  apetite.

ARMANDO  PINTO

 

NR

Texto enviado pelo Armando para o Boletim a ser editado para o Encontro.O título do blog é da nossa inteira responsabilidade.

A sua antecipada publicação, da nossa inteira responsabilidade, visa servir como motor emocional para aqueles que estejam mais indecisos em relação a rumarem até Fátima no proximo sábado!!!
antónio colaço



publicado por animo às 00:10
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