Segunda-feira, 31 de Agosto de 2009
LEITURA:AS ALMINHAS DA NOSSA TERRA
Padornelo%20Basanca%204%20FASS%201[1]

AS ALMINHAS DA MINHA TERRADEUSAS DAS ENCRUZILHADAS?

 

O povo romano foi em tudo, mesmo na religião, um povo de tendências pragmáticas. As práticas religiosas dos Romanos não visavam qualquer intuito idealista ou moral. Os ritos e as fórmulas sagradas, quer familiares, quer nacionais, tinham apenas o fim de tornar os deuses favoráveis, isto é, de evitar que estes lhes enviem castigos.

Os Romanos invocavam uma infinidade de numina, quer dizer, poderes ou vontades divinas. As origens destes numina perde-se na noite da Pré-História, pois os Romanos não os representaram durante muito tempo. Mas esses poderes (abstractos) foram-se concretizando na pessoa de alguns deuses que presidiam a certas actividades: Saturno (às sementeiras), Jano (à luz), Marte (à vegetação e mais tarde à guerra), Júpiter (ao céu e aos fenómenos atmosféricos), etc. A primeira e mais antiga tríade divina era constituída por Júpiter, Marte e Jano.

Os principais deuses nacionais, propriamente romanos, reflectem as características da raça latina, raça de camponeses e soldados.

Todo este breve preâmbulo para dizer que sempre me impressionaram/intrigaram “As alminhas da minha terra!” vejam bem! Situadas numa curva do lado direito de quem sobe para a igreja paroquial de S.Julião ou do lado esquerdo de quem desce para o rio, chamado Torto, no lugar dos Patelos, mesmo em frente à casa do senhor João Carvalho (que Deus haja!), encontramos um nicho, tipo miniatura em formato engenhoso de capela, protegido, vidrado e redado com imagens bastante realistas de almas/corpos de crianças, jovens e adultos a arder no brilhante e multicolor fogo, diziam eles do inferno e com o diabo de cornos esguios, tipo veado selvagem com cio e ar azafamado com cara de poucos amigos e aparentemente zangado e zangão com o forcado de espeto desenferrujado a atiçá-las hercúlea e vivamente. Quem por lá passava e toda a população o fazia obrigatoriamente ou não, inadvertida ou propositadamente olhava e quem destemidamente se aventurava a aproximar-se do tal, via e lia melhor a seguinte legenda, escrita por alguém frequentador de escolas de novas oportunidades profusamente divulgadas: “ Dê uma esmolinha para as almas!”. Recordo-me de alguém ter dito ou espalhado a notícia com pia e devota voz de que seriam as alminhas do purgatório a sofrer umas queimadelas antes de entrarem definitivamente no paraíso.

Bem. Declaro que aquelas luminosas labaredas e imagens sofredoras, mística e catolicamente traumatizantes, nunca na realidade se tinham visto ou ouvido falar em qualquer altura ou situação na aldeia. Creio até ao momento, que se saiba, nenhum cidadão daquela terra ter queimado outros seres vivos de igual forma, a não ser a tradição de matar e queimar a penugem dos porcos.

O passeante ou transeunte, criança semi-descalça, jovem esfarrapado ou adulto toldado e sebento de terra e lama ressequida, aterrorizado com tantas e gigantescas labaredas faiscantes que ardiam teimosamente sem de consumir e tanto fogo nunca visto, que até de noite espantavam a escuridão de breu, diga-se sinceramente, que é um milagre nunca explicado pela ciência mais avançada. As pessoas generosas e pasmadas de compaixão, temor e certamente alguma devoção colocavam na respectiva ranhura tosca e na greta já gasta pelo tempo e bastante larga e usada por quase todos os da terra e dos baldios arredores, seu óbulo generoso, minúsculo e muito espremido, fazendo lembrar o tal da viuvinha alegre, algures cantando e dançando nos coros e altares do senhor. Reparem que até alguns miúdos e dos mais atrevidos e menos princípios arriscavam meter o dedo na ranhura em forma de buraquinho, tentando apalpar os segredos do tesouro, mas que só um tinha o privilégio do acesso.

Esta visão tão dramática e efusivamente doentia criava no meu ser tantas artimanhas e fantasmas ao ponto de na descida para o rio e a caminho de Lordelo, que se chama, ainda hoje, “torto”, não sei porquê, calçada minhota primitiva cheia de musgo e lesmas a necessitar de dieta e emparedada de bardos e bardos de videiras e árvores diversas, tortulhos, lagartos e sardões, libelinhas doidas e alguns pardelhos e pássaras menos exóticas e onde não era costume passar o Cristo Salvador. Inebriado por tão sensuais imagens, provavelmente de artista queimado vivo e reencarnado, só me apetecia pegar em cântaros, baldes e panelas de água roubadas ao Zé moleiro tão humedecido pela corrente e ambiente do rio e muito surdo de tantos ecos dos jumentos famintos e cansados dos arreios e taleigos para refrescar aquelas angélicas almas sofredoras.

Tudo isto não passava de meras e pias intenções. Por mais rios e oceanos de água lançados hipoteticamente nas almas cadentes, intuía ingénua e puerilmente que as não aliviaria do fogo eterno, pois estavam irremediavelmente condenadas “in aeternum” pelas escrituras mais antigas e pelos sacrossantos doutores, dogmáticos e infalíveis iluminados. Toda a conjuntura social, política e religiosa assim sintonizava e as grandes e longas pregações, lausperenes, procissões, confissões e penitências… também alimentavam este frenesim e fundo pagano-religioso, muito domesticado pela ignorância e pela religiosidade popular pouco peneirada de cisco.

Mas, que triste imagem para tão alegre povo!

Hoje, não sei se existe. O progresso e a modernização das estradas e dos acessos às localidades provavelmente fez recuar tais mini-monumentos sacros que deviam ser protectores e acolhedores. Não quero pensar, Deus me livre, que seriam um obstáculo ao trabalho árduo de homens e máquinas nem ironizar o santo nicho e sagrado banco.

Mas, para onde ia o tesouro escondido e guardado a sete chaves e um porteiro com cornos, mas do diabo que o leve? Para o S. Julião, padroeiro da terra, o padre ou irmã do padre ou sobrinhos e sobrinhas e família do padre, paróquia, comissão fabriqueira, sacristão, bispo, arquidiocese de braga, episcopado, santos e santas de deus? Para onde?

Recentes notícias abonam que tais dádivas estão a ser objecto de averiguações desde há vários anos por parte de algumas entidades responsáveis civis e religiosas, por tesouros dispersos e mal administrados, mas como em tudo é preciso tempo e muita paciência para chegar a um veredicto. Os semanários, através dos seus comentadores mais assíduos e bem pagos, referem que mesmo que se encontre alguma luz ao fundo do túnel, terão a mesma sorte que os outros, arquivarão os processos e serão ilibados, pois aqui não há culpa nem culpados…E, esta, hein!?

JA


publicado por animo às 07:33
link do post | favorito

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



pesquisar
 
Julho 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


posts recentes

IR EM FRENTE MESMO QUE SE...

IDE EM FRENTE . MENSAGEM ...

PARA FÁTIMA E EM FORÇA ....

UMA ESPÉCIE DE ADEUS ATÉ ...

SANTA PÁSCOA PARA TODOS

AS MÚSICAS DA MÚSICA TOCA...

CAPUCHINHOS DE 1968 . CON...

CAPUCHINHOS DE 1968 . CON...

ANTÓNIO SILVA E ARMÉNIO M...

ALMOÇAI EM MINHA MEMÓRIA ...

arquivos

Julho 2017

Setembro 2016

Março 2016

Dezembro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Maio 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Julho 2014

Junho 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

blogs SAPO
subscrever feeds