Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
ÂNIMO, MANEL!

No preciso momento (7.30 desta terça enregeladamente soalheira) em que o Manel Carrilho dá entrada na sala de operações  do Hospital de Sta Maria, acabamos de receber estas palavras deixadas por ele através dos seus filhos Ana e Gui.Obrigado para eles!

 

É um privilégio, sabendo o estado de saúde do Manel, perceber até onde somos capazes de ir em circunstâncias nada agradáveis.Quero ser digno da tua coragem, Manel!

Obrigado, Manel.

Estamos todos a torcer por ti!

antónio colaço

PS

Não tenho foto para ilustrar as tuas palavras.Havemos de tirar o retrato mal fiques bem!

______________________________________________________________

 

 

 

Ânimo
 
 
Desafiou-me o amigo Colaço, para dissertar algo sobre a palavra “Ânimo”.
Talvez, para saber a minha força ou o meu estado de alma, numa altura destas.
Podia começar pela pergunta - Quanto pesa uma alma?
Poderia responder, que a alma pesa tanto como a consciência.
Mas haveria logo um menino, que diria que com as “novas tecnologias”, já é possível pesar a consciência.
Poderia dizer, que pesa tanto como o mundo.
Mas logo viria o tal menino, dizendo que todo o volume das diversas massas, já foram calculadas e fácil seria calcular o peso do mundo.
Para não me chatear mais, (o tal menino), dir-lhe-ia, que o peso da alma, é igual ao peso do universo.
 Por se desconhecer o princípio e fim do universo, com os seus milhões de galácticas, impossível calcular em área ou volume o peso do universo.
Claro que isto daria pano para mangas, mas eu não vou por aí…
Tudo tem um princípio e fim.
Por paradoxo, não conhecemos o nosso princípio e o nosso fim.
Eu, pelo menos, começo apenas a ter recordações, dos meus 4 anos, porque tinha que ir para a mestra, a “educadora de infância”, nessa altura.
O fim…
Bom, o fim, vamo-nos apercebendo dele, mas sem nunca admitirmos bem, o avanço da idade.
Quando era novo, nunca me imaginei com a idade que tenho agora. Pedirem-me, para me imaginar, como seria eu, com esta idade, seria como se me pedissem para imaginar o mundo depois da morte.
Mas agora, passados tantos anos e vivendo neste mundo inimaginável, confere-me o direito, de já ter uma ideia, e este sentimento estranho, onde até posso imaginar o mundo depois da morte.
Tendo essa prorrogativa, não sei se me posso considerar um homem feliz.
Se estivesse a falar de alguma coisa, de que já tivesse alguma experiência antes, poderia compreender melhor a situação e explicá-la melhor, mas como é a 1ª vez, não é fácil.
À medida que os anos foram passando, porém, fui compreendendo até que ponto as provações e sofrimentos, são importantes.
Talvez por isso, encare e aceite melhor agora, as provações e sofrimentos que esta minha doença me provoca.
É isso também, que confere aos homens o facto de serem diferentes uns dos outros, e sentirem as coisas também de maneira diferente.
É devido à minha capacidade para ver certos aspectos de uma paisagem, que escapam aos olhos dos outros, a forma de sentir diferente, que me faz escolher palavras que diferem das utilizadas pelos outros, e me faz poeta.
As feridas emocionais e agora físicas, são como que o preço a pagar ao mundo, para se obter a independência como ser humano.
Em determinados momentos da vida, procurei a solidão, até de uma forma empenhada.
A solidão dava-me uma sensação de protecção por um lado, mas é uma espada de dois gumes.
É corrosiva, e pode corroer inconscientemente a alma e desintegrá-la, sem que a pessoa se aperceba disso.
Ah solidão, solidão
Mãe de tanta amargura
És filha da saudade
E irmã da desventura
 
Em relação ao meu ânimo, ou estado de espírito, é bom muito bom até, para quem está num hospital há quase 3 meses.
Fala-se bastante das doenças do coração, dos acidentes vasculares cerebrais, do estômago, fígado, intestinos, mas pouco ou quase nada sobre o aparelho urinário.
É uma doença silenciosa, pois não dói, até que de repente somos surpreendidos.
Recebi a notícia naturalmente, como se inconscientemente já estivesse à espera.
Não sei porquê, tenho umas características físicas que estão relacionadas com a maneira como funciona a minha mente, mas… será a mente de uma pessoa, a influenciada pelo seu corpo, ou será o contrário, e, nesse caso, as características corporais, mostram-se sobre o efeito da mente? Ou será ainda, que o corpo e espírito se interagem, influenciando-se mutuamente?
Mas deixemos isso para os entendidos.
Como poderão verificar, o meu estado de espírito, anda a saltitar para aqui e para ali, e, ainda não consegui fixar o pensamento na palavra ânimo.
Andava neste saltitar de ideias, quando chegou o amigo Colaço, trazendo-me o seu ânimo.
Isto no dia 29, sexta-feira, tinha eu acabado de almoçar
A ementa?
1 consumé de espargos
1 faisão real com trufas
A sobremesa?
Foi a conversa com o amigo Colaço, onde falamos de nós e de vós e de tudo e nada.
… da Animus, dos projectos dele e lá se foi, deixando-me o seu ânimo.
Obrigado Colaço.
 
Não sei se lhe consegui aliviar o peso da alma, mas ele aliviou o peso da minha, com a qual fiquei a falar.
 
Onde vais alma penada
Me perguntou a noite agreste
Sempre só e tresmalhada
Que mal ao mundo fizeste?
 
Conversa comigo, malvada
Não tenhas medo, responde
Mas minha alma fica calada
E da noite até se esconde
 
Mas, com ela eu insisto…
E minha alma descontrolada
Mais triste que a noite triste
Quer falar mas não diz nada!
 
A alma!...
Um dicionário qualquer me diz que ânimo é: … alma, espírito, alento, vida, vigor, firmeza e coragem.
É isso que eu tenho, para enfrentar a vida.
Não pensem que estou acamado, ou coisa assim.
Ando naturalmente e bem, não tenho dores, só espero a operação.
Amanhã, dia 2, lá irei então para a sala de corte e costura, e, vai tudo correr bem.
Seja o que Deus quiser.
Depois, num novo episódio, vos descreverei então o que é o ânimo.
Por enquanto vão lendo o blog “animus60” que eu vou remeter-me ao silêncio.
Obrigado a todos que me têm incutido força e coragem.
Deixo-vos com
Silêncios
 
Há no mundo… silêncios
Que nada nos dizem
Porque…
De tão distantes, tais silêncios
Não nos chegam.
Mas… às vezes basta
Uma pequena lembrança
Para que…
Das nossas gargantas
Saia o grito
Que muito longe chegará.
 
Há no mundo… silêncios
Que são gritos de revolta
Calados
Porque surdos
São aqueles que não escutam
Os gritos no silêncio da noite
Porque…
A noite é o silêncio
 
Há no mundo… silêncios
Que mesmo longe se ouvem
…mas em surdina.
Tais silêncios são palavras
Que se calam
Na boca do coração.
Palavras que se misturam
No sangue
Porque…
Feito de sangue é o silêncio
 
Há no mundo… silêncios
Que são gritos censurados
De vidas que morrem
Sufocadas
Mas grilhetas dos silêncios
Porque…
Só a morte é o silêncio
 
Caríssimos amigos:
No meu silêncio vos deixo com um abraço e este soneto.
 
Já nascia no escuro a tristeza
A primeira poesia, o verso puro
Que trazia o meu peito sem defesa
Da perda, que me tornava duro
 
Era a dor um muro de singeleza
No desânimo, eu era inseguro
Ao compor um poema que surpresa
Vi que melhor seria o meu futuro
 
A palavra amor depois de escrita
Me trouxe ânimo e a esperança
Por isso a respeito por ser bonita
 
Assim escrevendo, é doce paixão
Fica a alma mais pura e bendita
Ainda mais forte fica o coração
 
 
 
 
Da Enfermeira Chefe… Susana
 
Quando no peito o coração se aperta
E a nossa alma parece deserta
Como tomada por causa doentia,
Quando estranha saudade nos invade
E um sentido de perda e de ansiedade
Nos confrange cá dentro e angustia;
 
Quando imagens, momentos, evocamos
E até os cheiros no ar que respiramos
Parecem tão presentes e reais,
Que imensa frustração de nós se apossa
Face à certeza que então nos acossa;
De não os revivermos nunca mais
 
Porque a bela palavra “nostalgia”
Com que enfeitamos prosas e poesia,
Que viaja connosco a outras eras
Ou que nos traz saudade verdadeira,
É trucidante, bárbara, açoeiteira
Pois não se ressuscitam as quimeras
 
 
Até um dia, se Deus quiser
 
 
…continua…
 
Manuel Carrilho


publicado por animo às 08:05
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