Sábado, 20 de Março de 2010
WEBANGELHO

UMA PARÁBOLA DOCEMENTE INQUIETANTE

 

 

1.Os católicos que, hoje, forem à missa deparam
com um texto do Evangelho de S. Lucas muito
estranho. É tirado do capítulo 15. Este capítulo
começa por dizer que todos os publicanos e pecadores
se aproximavam de Jesus para o ouvir. Os
fariseus e os escribas, porém, murmuravam: este homem
recebe os pecadores e come com eles.
Se tivermos em conta o que estas expressões e grupos
sociais representavam, Jesus é o homem que subverte
todos os valores. Gosta mais dos maus do que dos bons.
As simpatias vão para os que não prestam. Ora, a virtude
deve ser premiada e o vício reprimido.
Vem a seguir uma passagem que não pode fazer parte
de um bom manual de pastorícia. Abandonar 99 ovelhas
para ir procurar a que se tinha desligado do rebanho é
expor-se a perdê-las todas. A parábola da dracma perdida,
que segue a anterior, não sabe que o tempo é dinheiro.
Por outro lado, ninguém dirá que a longa narrativa sobre
o chamado fi lho pródigo possa fi gurar na biblioteca de
uma Escola de Pais. Este capítulo, no seu conjunto, nem
na secção de perdidos e achados faria boa fi gura.
Então, por que terá sido escolhida a última parte – a
parábola impropriamente chamada do fi lho pródigo – para
a missa do 4.° domingo da Quaresma? Serão também os
Evangelhos “manuais de maus costumes”, repetindo a
expressão que José Saramago usou para o conjunto da
Bíblia?
2.Este texto foi, pelo contrário, muito bem escolhido.
Toca, de forma indirecta, segundo a
linguagem própria das parábolas, no essencial
da revolução religiosa de Jesus, perante
a qual continua a existir grande resistência
nas comunidades cristãs. Foi, aliás, para elas, para nós,
que S. Lucas a escreveu.
Antes de mais, é preciso ler e entender o que está escrito.
O núcleo da parábola não é constituído pela conversão
do fi lho pródigo, como habitualmente se diz. Se
assim fosse, teria de começar assim: um homem tinha
um fi lho e este foi ter com o pai e pediu-lhe a herança
que lhe correspondia... Ora, a parábola começa por dizer:
um homem tinha dois fi lhos. Na lógica da parábola, o
mais novo, o estoura-vergas, representa os classificados
por pecadores e cobradores de impostos (duplamente
pecadores) e o fi lho mais velho os fariseus e escribas, as
duas categorias que presidem ao capítulo em análise,
mas universalizando o alcance de duas típicas formas
de existência.
A primeira retrata aqueles que, tendo vivido à margem
de todas as regras, cometendo os maiores desvarios,
descobrem, um dia, que andam a dar cabo da vida e, arrependidos,
encontram o caminho da sua recuperação.
A segunda representa o mundo religioso daqueles que
medem tudo pela observância ou infracção da lei, sempre
prontos a espiar o comportamento dos outros a partir da
sua tabela de valores. O amor, a gratuidade, a compaixão,
a festa, não fazem parte do seu universo e Deus é um juiz
segundo as regras que eles estabeleceram em seu nome.
Esquecemos, aliás, que a parábola é um triângulo e a revolução
cristã não atinge só os típicos comportamentos
dos dois fi lhos, mas sobretudo o comportamento do Pai,
que nada tem a ver com a religião farisaica.
3.O perigo das nossas leituras dos Evangelhos
reside na forma habitual como são proclamados
na liturgia: Naquele tempo, etc. Fazem bem
ao levar-nos até ao começo de dois mil anos
de história cristã. O cristianismo também é
uma memória. Corre-se, porém, o risco de pensar que
os classifi cados como pecadores e publicanos e os designados
por fariseus e escribas (os letrados) são categorias
sociais e religiosas de um tempo que já passou e que não
têm nada a ver connosco.
Na verdade, é precisamente o contrário. As comunidades
cristãs de hoje não têm de resolver os problemas das
primeiras comunidades e, muito menos, os confrontos
em que Jesus foi envolvido. Se lemos os textos hoje, é
para encontrar correspondências – não têm que ser literais,
simétricas – no nosso tempo, na vida da sociedade e
da Igreja; de outra forma, nada justifi caria a sua leitura.
Seria, no entanto, perigoso participar numa celebração
da missa e começar, cada um, a ver quem são os classifi
cados como pecadores e os autenticamente fariseus
da comunidade. Nada pode garantir o acerto.
Por isso,Jesus proibiu-nos de julgar.Uma espantosa sabedoria, depois de muitas experiências
ao longo dos séculos, chegou à conclusão de que
a missa, celebrada em nome de Deus, deve começar
sempre pelo acto de cada um se confessar pecador
e pedir a misericórdia de Deus e dos irmãos. Sem apontar o dedo a ninguém, todos são interpelados, a começar por quem preside.
Nada disto impede que a Igreja, no seu conjunto, interrogue
o Direito Canónico, os seus comportamentos e
as diferentes instâncias das paróquias, das dioceses, do
Vaticano, em suma, a sua pastoral à luz do capítulo 15 do
Evangelho de S. Lucas, aqui evocado.
Que acolhimento têm, na Igreja, as mulheres, os intelectuais
heterodoxos, os divorciados recasados, os homossexuais?
Não haverá, hoje, nas comunidades cristãs,
grupos que acham escandaloso que se perca tempo com
ateus, agnósticos, imigrantes de outras culturas e religiões,
com o pretexto de que vêm minar os nossos valores
culturais e as raízes cristãs da Europa?
Frei Bento Domingues
In PUBLICO 14.03.2010

 



publicado por animo às 00:58
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