Terça-feira, 23 de Março de 2010
WEBANGELHO DE BENTO DOMINGUES

A POÉTICA DO AMOR E A PROSA DA JUSTIÇA

 

Quem faz o bem sem olhar a quem vem da zona de Deus com a alma transfigurada

 

1. Quem, hoje, for à missa – e quem não for pode

abrir o Evangelho – vai encontrar-se com um Jesus

que resolveu não ligar nem a Moisés nem aos

escribas (os letrados) nem aos fariseus. A cena

reconstituída pelo autor do IV Evangelho, um

grande dramaturgo, é impressionante ( Jo 8, 1-11).

Jesus desce do Monte das Oliveiras de manhã cedo e antes

do nascer do sol já estava na área do Templo a ensinar.

Os escribas e os fariseus apresentaram-lhe uma mulher

surpreendida em adultério. Colocaram-na no meio dos

presentes e disseram: “Mestre, esta mulher foi surpreendida

em fl agrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos

apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?”

Para o narrador, eles falavam assim não para alargarem

o seu horizonte ou para ouvir uma nova forma de

interpretar a Lei, mas “para lhe armarem uma cilada e

terem pretexto para o acusar”.

Jesus deu a impressão de que não estava para os aturar.

Inclinou-se e começou a escrever com o dedo no chão.

Nunca ninguém saberá o que escreveu. Parece que estava

a ganhar tempo, pois não o largavam com perguntas. Levantou-

se e resumiu a sua interpretação: “Quem de entre

vós não tiver pecado atire a primeira pedra!” Inclinou-se

de novo e continuou a escrever no chão.

Conta o narrador que eles, ao ouvir aquilo, foram

saindo um após outro, a começar pelos mais velhos.

Jesus fi cou sozinho com a sua escrita e a mulher permanecia

lá sem saber o que fazer. Jesus, erguendo-se,

disse-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?”

Resposta da mulher: “Ninguém, Senhor.” Depois,

vem a sentença de Jesus: “Nem eu te condeno. Vai e não

estragues a tua vida.”

2.O gesto astucioso e libertador de Jesus não é

um caso errático na sua intervenção. Estava

inscrito no seu programa inaugural. Conta

S. Lucas que Jesus, depois de uma noite de

oração na montanha, escolheu os apóstolos

e tentou fazer-lhes entender que eles não constituíam

uma elite privilegiada na Igreja, mas um serviço de todos,

no meio de todos: “Descendo com eles, deteve-se

num sítio plano, juntamente com numerosos discípulos

e uma grande multidão de toda a Aldeia, de Jerusalém e

do litoral de Tiro e de Sídon, que acorrera para o ouvir

e ser curada dos seus males. Os que eram atormentados

por espíritos malignos fi cavam curados; e toda a multidão

procurava tocar-lhe, pois emanava dele uma energia que

a todos curava” (Lc 6, 12-19).

Não era magia nem culto dos milagres. Era, pura e

simplesmente, a restituição da dignidade humana, a

busca de uma nova luz e de um novo impulso para viver.

De facto, logo a seguir vem a proclamação das “bemaventuranças”,

uma radical alteração de valores que

coloca a felicidade onde se costuma ver, apenas, a pouca

sorte. Felizes não são os avaliados pelo dinheiro, pela

posição social, pelo poder que detêm. Felizes são os que

acreditam que a última palavra não pertence à pobreza,

à fome, à doença, à tristeza. Jesus recusa o destino

e abre uma brecha de libertação no interior da história

humana, através da conversão do desejo. A felicidade

não está em ter ou não ter, mas em desejar o que realiza

o ser humano como relação com o Absoluto e com os

outros. É a morte do narcisismo.

3.A “regra de ouro” de várias culturas e sabedorias

é expressa em termos negativos: “Não

faças aos outros o que não desejas que te façam

a ti.” No Evangelho é formulada de modo

positivo: “Faz aos outros o que gostarias que

eles te fi zessem.” A “regra de ouro”, tanto na sua forma

negativa como positiva, move-se, apesar de tudo, na área

da justiça, da equivalência, da reciprocidade. Não ultrapassa

o interesse, não atinge a gratuidade. Paul Ricoeur

(1), numa célebre conferência ao receber o Prémio Leopold

Lucas, procurou lançar uma ponte entre a poética

do amor e a prosa da justiça, entre o hino e a regra. Encontrou

esse caminho no próprio texto de S. Lucas (Lc

6, 27-38) porque este juntou à “regra de ouro” – desejo

de reciprocidade – o amor dos inimigos, amor da pura

gratuidade, donde nenhuma recompensa se espera. Neste

caso, entra-se na economia do puro dom que excede

todas as dimensões da ética: “Se amais aqueles que vos

amam, se fazeis bem àqueles que vos fazem bem, o que

há de especial nisso?”

O amor de pura gratuidade situa-se na órbita do divino.

Deus não cria nem refaz o mundo por carência afectiva,

por desejo de reciprocidade, mas porque é amor-agapê,

dom sem expectativa de retorno. Deus não faz negócio

com os seus dons. É por

isso que o amor dos inimigos

é divino, é o divino em

humanidade. Quem faz o

bem sem olhar a quem, seja

amigo ou inimigo, saibao

ou não, vem da zona de

Deus com a alma transfi -

gurada.

No Novo Testamento, há

parábolas carregadas com

esta energia misteriosa: a

do chamado bom samaritano

(Lc 10, 29-37) e aquela correntemente designada

por juízo fi nal (Mt 25, 31-46), onde a história de cada um

depende da forma como tratou o outro, atingindo o absoluto

no que há de mais relativo no quotidiano, socorrendo

aqueles que precisam só porque precisam.

S. Francisco de Assis é sempre apontado como o grande

poeta cristão. Há outros, mas o maior de todos é português:

S. João de Deus. Cada um descubra porquê.

 

(1) Paul Ricoeur, Amour et justice, Points, Paris, 2008.

In Público de 21.03.2010

 

 



publicado por animo às 08:05
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