Quarta-feira, 11 de Agosto de 2010
A FALA DAS CASAS RECUPERADAS

Algures para as bandas da Sertã, o meu amigo Manuel Domingues, vergado ao sol escaldante de Agosto, não pára, reabilitando uma velha casa que apenas pedia, "salvem-me, não me deixem morrer, não tenho onde guardar as mil e uma histórias que entre as minhas quatro paredes vi terem lugar!O que há-de ser de mim, ruindo, parede a parede,montão de pedras, sepultando histórias sem fim!"

 

Fala-vos, alguém, para quem o que resta do chão que o viu nascer são a meia dúzia de carros estacionados num envergonhado parque que a CM de Gavião ali ousou erguer. Porque ao tempo, consciência e meios, ainda não podia ter e as continuadas intempéries se encarregaram de antecipar um "problema para a saúde pública" que um camarário caterpliller se encarregou de "sarar"!

 

A casa térrea do Largo do Espírito Santo, e todos os breves passos dados durante os meus inocentes primeiros cinco anos, está bem viva na minha memória de menino, mas quis o destino que viesse redimi-la, reabilitando, em Mação, a Casa do Bisavô Luís, bisavô de Maria, a qual, se não lhe acudíssemos a tempo, igual destino conheceria.

 

Dez anos passados, Manel, recordo com emoção as lágrimas que deixei soltar, sentado no sótão da casa então destelhada, tendo por única companheira, uma lua encantada, agradecida por saber que, uma vez recuperada, mais gente subiria à varanda para admirar o rendilhado do seu vestido lunar.

Recuperar Mação, Manel, foi assim como que vingar as ruínas de Gavião.

 

Deixo-te, Manel, com a sala do primeiro andar e como foi bom na sua afagada madeira rolar, confirmando o acertado da decisão de rejeitarmos a proclamada placa de betão.

Passando por este chão os nossos passos acrescentam passos aos antepassados que já cá não estão.

Os tectos, as suas irregulares mas sábias linhas geométricas, a singela talha dos móveis com seus vidros guardando as louças quase nunca utilizadas, sempre à espera dos dias que virão, o tão meticuloso quanto fabuloso rendilhado das almofadas, verdadeiras obras primas das mãos que os tricotaram... e o relógio de sala, verdadeiro coração da casa, preciosa imitação do relógio que me fascinava na casa da Ta Jacinta do vizinho Ti Chamiço, em Gavião, e que constitui primeiro e obrigatório ritual de quem chega, pô-lo "a trabalhar"!

 

As casas recuperadas, Manel, falam connosco as tantas vozes dos antepassados, sim, mas desafiam-nos também a que nunca delas nos esqueçamos porque, garantem,são elas que nos irão lembrar aos nossos vindouros, o que de bom, e tão bem,por elas fizémos sem olhar a quem.

 

 

 

 

 

Força, Manel.

 

 

 

antónio colaço

 

 



publicado por animo às 14:21
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