Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010
AS HISTORIAS DE JOAQUIM AFONSO

 

 

 

 

O AUTARCA DO BURRO

OU

O BURRO DO AUTARCA

 

 

Antigamente e talvez, ainda hoje, em muitas aldeias e terras do norte e provavelmente noutras regiões do país, o asinus (vulgo asno) era um animal respeitável e venerado, não pelas patadas ou coices que exibia à mínima provocação ou pelo zurrar estridente, fazendo lembrar as badaladas tangentes de um campanário, mas porque servia docilmente os interesses domésticos dos seus donos, sem os questionar ou zz…u…rrar.

Acontece que numa determinada região do sul de Portugal, o autarca tinha uma grande propriedade junto à praia e com maravilhosas e invejáveis vistas para o mar e a imensidão do oceano. Nela, o burro pastava alegremente perante o olhar pasmado do dono e de todos os vizinhos, que o admiravam pela sua postura, rectidão e sossego. Muitas vezes provocado a desacatos, reagia com passiva e admirável serenidade.

Não tendo o autarca, devido às suas grandes e opiperas reuniões e outras tarefas inerentes à sua função e responsabilidade, tempo e disponibilidade para a modernização e rentabilização da quinta, decidiu então, depois de consultar a sua provecta e senil família, colocá-la à venda. Surgiram de imediato inúmeros interessados, mas nem todos reuniam as condições exigidas. Após exausta e ponderada reflexão e de criteriosa selecção dos interessados, o autarca decide vendê-la ao primo da prima do primo. Foi deveras uma decisão difícil, dado que ela lhe tinha calhado numa herança de entes afastados.

Negócio fechado. O primo da prima do primo, depois de tirar umas dúvidas na capital, decide avançar na construção imobiliária. Aquilo de que era proprietário deixou de o ser, ficou para outro com muita pena da sua bela mulher.

Construídos os prédios em extensão e em altura, praticamente aquilo que era uma quinta e paraíso do burro, deixou de o ser para ser o paraíso de… e para tristeza e desencanto do asino e de todos os que o admiravam e ouviam. Até os vizinhos estranharam tal deformação arquitectónica. O que antes alimentava e apaixonava o burro deixa agora de o apaixonar ao ponto de nas redondezas nunca mais se ouvir o eco do animal.

Todos os dias a população olhava saudosamente para o local da antiga quinta, mas infelizmente não via, não ouvia o burro nem a praia nem o mar!

Apenas diziam baixinho entre si e entre dentes:

- Aquela quinta era do burro do autarca! “E, esta, hein!?”

 

Joaquim Afonso



publicado por animo às 02:16
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