Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010
JOAQUIM AFONSO E RUI CHAMUSCO POR TERRAS DE FRANÇA!!!

 

 

 

O QUEIMADO E O CHAMUSCADO

(A METÁFORA DA FUGA)

 

Decorria o ano de 1973, pioneiro em mudanças dentro da sociedade civil, política e religiosa. Os estudantes “maiores” da OFMCAP foram transferidos do Porto para Lisboa, a nova e virgem casa de Barjona de Freitas, em Benfica. Depois da santa e bela moradia, que fica perto da “katedral” ser inaugurada “os maiores” e seus brilhantes e doutos directores intalaram-se comodamente nos novos aposentos uns com belas e invejáveis vistas para a serra de Monsanto e estrada de Benfica e outros já nas traseiras com vista para as instalações do exército colonial cheias de sucata vária, contemplando narcisicamente aqueles monumentos-máquina metamorfoseados à distância e desejosos de hercúlea e vâ glória.

E, a vida, na comunidade com os rituais a que estavamos habituados decorria com toda a normalidade bem como a vida académica, no Instituto Superior de Estudos Teológicos, então situado na Estrada da Luz. Aí, os estudantes dos diversos institutos e congregações religiosas frequentavam as aulas e conheciam novos colegas, professores e novos métodos. Recordo-me ainda do Bento Domingues, António Reis…

Na comunidade, para além do estudo e cumprimento dos horários estabelecidos, colaborávamos com os “leigos” na catequese, liturgia, coral, conferências, colóquios, revista Bíblica, pastoral de emigrantes (que o diga o Paulino Cabo-Verdiano, grande tocador de viola e cantador de mornas e coladeiras) nas dispersas comunidades visitadas. Estas ocupações muito pedagógicas e salutares permitiram-nos uma maior abertura à comunidade envolvente, autonomia e consciência crítica ao ponto de nos encontrarmos e convivermos com muitos jovens nas ruas e cafés.

Os períodos lectivos iam passando e claro com o aproximar das férias, ideias e projectos iam nascendo naquelas pensadoras cabecinhas. E, não é que o Queimado antes de ser Chamuscado se lembrou de ir para França trabalhar nas férias. Mas, que malfadada ideia! Mas, afinal, como? Bom. Toca a engendrar o enxoval como no princípio do tempo. Toca a expôr a ideia aos superiores. Incipiente de início, mais amadurecida lentamente até que Julho e Agosto galopemente se aproximam. Diz-me o superior ab altissimum conventum: - Joaquim, tu não podes ir para França, ainda és “simples” e como tal não tens autorização para te ausentares a não ser que arranjes um “solene” que te acompanhe. Não imaginam qual foi minha grande frustração…a destruição de um sonho…

Mas, desistir é próprio dos fracos e todos nós tinhamos consciência de que eramos unidos e fortes.

Então resolvi falar com o Rui Chamusca que me atendeu e ouviu. – Rui, queres ir trabalhar comigo para França durante as férias? O quê, Joaquim, estás a sonhar! O superior só me autoriza se houver alguém que me acompanhe e tu queres acompanhar-me? O Rui, pasmado e ao mesmo tempo impressionado com a ideia, respondeu-me determinadamente que sim. Agradeci-lhe.

-Quem vai pagar a viagem? Perguntou. Respondi-lhe que eramos nós, pois da parte da comunidade não teríamos ajuda. Hoc opus hic labor est. Fala com teus pais que eu falo com os meus. Dito e feito. Dinheiro na mão e viagem marcada rumo ao bosque situado na montanha de Toulouse – Perigueux – montanha de Monsieur Cunhenc – Chantier du bois.

-Trabalhem malandros!- Trabalhem malandros! Ouço em distorcido árabe e gaulês vociferar dois árabes para dois estudantes portugueses e um portuguesito bragantino à espera de carta de trabalho há mais de um ano.

Os dias e semanas foram passando e toneladas e toneladas de sacos de carvão eram armazenados para depois serem distribuídos por toda a gélida, progressista e revolucionária França. O ritmo de trabalho tornou-se cada vez mais intenso, as relações luso-franco-árabes mais frias, apesar dos carvões sempre fumegantes e vivos que imprevisivelmente num determinado dia, creio que de manhã, estando eu e o portuguesito a retirar o carvão do chapaux com gadanhos e alfaias apropriadas, os dois árabes enraivecidos e semitranstornados, talvez pela maior quantidade de sacos cheios dos portuguses, forçando os seus gadanhos aguçados lançam-me para dentro do brasume da fornalha, qual javali ou porco-espinho a precisar de ser chamuscado, queimado e provavelmente comido, não se esqueçam que estavamos na montanha, isolados das povoações. Digo-vos que foi a minha primeira visão do inferno, pois as queimaduras nas minhas sagradas e bem tratadas ferraduras foram demasiado intensas e não tive santo nem santa que me valesse.

Mas, afinal, onde estava o Rui Chamusco? Companheiro de viagem, de dias e dias de trabalho, semanas a encher sacos e mais sacos de charbon du bois, exemplares e tenazes carvoeiros da lenha alheia.

Afinal, onde estava ou para onde foi o Rui Chamusca? Porque me abandonaste?

Mais tarde vim a saber que se dirigia para a casa de sua irmã, em Paris, enquanto o Queimado se dirigia a grande velocidade para Portugal, gritando desalmadamente pelas estações onde passava: socorro…socorro…socorro...socorro…!

E, esta, hein!?

 

Joaquim Afonso

 

 

NR

 

A redacção do irmão sol não pode deixar de sublinhar a grande forma literária em que se encontra o nosso querido Joaquim Afonso!!!Constantino Sério,vamos lá, venha daí mais uma crónica do JINGO e teremos as "grandes audiências de regresso ao conventinho virtual!!

antónio colaço

 

 



publicado por animo às 16:07
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