Quinta-feira, 26 de Abril de 2012
BORDA DÁGUA. BORDA FORA DOS DIAS .NÃO VIVO PARA ESCREVER.ESCREVO PORQUE VIVO.

 

Acabei de sair da SIC Notícias, há instantes, onde, para além de comentar as notícias do dia,terminei a oferecer a todos os que fazem aquela televisão, a edição da serigrafia SINFONIA PARA UM PRATO DE BATATA FRITA COM SALSICHA editada pelo CPS-Centro Português de Serigrafia a partir deste original de Março de 1972.

Sem rumo - falhou um agendado almoço cujo silêncio em torno da sua realização acabaria por me desestabilizar mesmo a entrar para os estúdios - decido ir almoçar à tasca "O Galo", no Nº 26 da Rua Dr Gama Barros, mesmo por detrás do velho e pioneiro Centro Comercial da Av de Roma, onde nasceu a vontade de registar, em grafite, aquele que era, em regra, o nosso prato de jantar há quarenta anos.

 

Desilusão.Uma senhora explica-me que "ah!isso já fechou há tantos anos.Agora é o restaurante Bikini que só abre de vez em quando".

Não há tempo a perder.A Mãe d'Água espera por mim.Entre a saudade e actualidade devo poder demorar-me mais um pouco.

Espera-me a Pastelaria Sílvia, em plena Avenida de Roma, um dos mais míticos lugares de encontro dos cardiguenses, que me adoptaram, em Lisboa.Na esquina para a Piscina do Areeiro.

É aqui que me sento na esplanada e peço o prato de batata frita, o cachorro e a imperial.As iguarias mais chegadas ao prato original da desaparecida tasca GALO.

E é aqui, meu querido e saudoso Zé Mário ( para os leitores és o homem de barbas que encima esta "Última Ceia" contigo ma Portugália!) que tu entras.

Preparo-me para te escrever uma carta, sabendo que neste momento és, afinal, de toda a malta, o único que verdadeiramente aqui estás presente ao meu lado!

Todos os outros andam na sua folia.

Quero recordar Zé a tua paternal amizade para com todos nós, em especial para comigo, o benjamim da turma, a todos os níveis, acabadinho de sair do Convento e a quem todos queriam "ajudar" a abrir os olhos para este novo mundo que me acolheu vindo do distante Porto.

Estou quase a deixar rolar uma lágrima enquanto me preparo para descer contigo até ao velhinho Império, tu com o teu inseparável Diário de Lisboa, quem sabe eu vá ver pela milésima vez o Dustin Hoffman e a sua PRIMEIRA NOITE (sim podem ouvir aqui uma dessas eternas músicas que tanto nos marcaram a todos) quando, tendo começado a comer as batatas fritas acabadinhas de chegar, já o cachorro ia a meio, avança na minha direcção, meio andrajoso, desgrenhado, um rosto fustigado por noites mal dormidas, vindo de leste, mas a fazer pela vida, oferecendo-me para que compre o Borda d'Água.

Recuso e minto dizendo que já tenho.

Quero continuar a escrever para ti, Zé.Eu que costumo dizer agora, meia figura pública a dar entrevistas a aparecer na TV, que não vivo para escrever ou pintar. Pinto e escrevo porque vivo, Zé!

Zé, o homem não desarma. Não vê que estou a almoçar e a celebrar os 40 anos de um quadro que acaba de ser mostrado ao mundo.Não vê que tenho uma lágrima a querer rolar pelo rosto e que ele está a interromper o seu lacrimoso percurso.

Zé, faz alguma coisa, quando estavas entre nós não havia "disto", romenos, feios, porcos e...maus, imagina só de onde esta gente veio para nos atrapalhar o dia. Estava aqui a conseguir uma croniqueta gira para editar no Facebook - pois, Zé, não sabes o que é isto, não é do teu tempo em que a nossa grande vontade de comunicar era ao fim do dia de volta de umas bjecas na Portugália, um SG para incensar a noite, umas escapadelas a uns barezitos do Cais do Sodré.... - e vem-me este romeno que não para de me olhar com uns olhos negros da cor da noite escura em que deve viver todo o dia a querer vender-me o Borda dÁgua!!!
Faz alguma coisa Zé, eu preciso de escrever e tenho de ir para a Mãe d'Água continuar esta saga de artista!

 

O romeno não desgruda.Já que não lhe conmpro o Borda d'Água ao menos, gesticula, leva as mãos à boca e sinaliza qualquer coisa tipo "dinheiro para comer!"Eu tinha visto o filme todo quando ele se aproximou da mesa, Zé!Quem me mandou vir para a esplanada, tal como fazíamos!
Eu sabia que o romeno não me ia largar!
Zé, não fazes nada, eu rendo-me!

Mandei-o sentar.

Que começasse a comer as minhas queridas batatinhas acabadas de chegar, estaladiças, um regalo, agora, para os meus olhos.Devo ter comido meia dúzia.

Que queres comer para acompanhar, um cachorro como eu?

Que sim, disse, meio espantado com o que acabava de acontecer-lhe.

Bebes uma imperial, como eu?
Queres mostarda, como eu?

 

Zé, continuo a falar contigo um destes dias.

 

Viro-me para o romeno e zurzo no mais íntimo de mim "meu sacana, dás-me cabo das batatinhas todas e nem sequer me ofereces uma!!!"

Mora na Amadora.Tem cá a mulher e uma filha. Veio da Roménia. Lá trabalhava numa empresa de mudanças.Mostra-me uma carteira a cair aos pedaços mas onde guarda a fotografia dos pais, da mulher e o seu bilhete de identidade.

 

Pergunta-me qualquer coisa tipo "onde andas?"

Digo-lhe que...ando por aí!

É a altura de pedir a conta e dizer ao meu interlocutor que esteja à vontade, que coma as batatinhas e que seja muito feliz.

Levanto-me para ir buscar o telemóvel à NOKIA do Areeiro pois tinha ficado a fazer um "tratamento estético (assim reza a factura)ou seja, o écran estava mais sujo do que o rosto deste romeno e já mal deixava ler o que quer que fosse.

No caminho deixo rolar todas as lágrimas que estavam há muito contidas.

Eu que esperava um almoço patrocinado por dois amigos recentes,ali estava a chorar, passo a passo, na Av João XXI, não sei se a minha própria marginalização, sim, um tipo acabado de sair da televisão, a ser recebido em ombros nalgum restaurante chique, assim esquecido!!, se a marginalização daquele romeno a quem, sem querer, terei proporcionado uma reconfortante pausa na árdua tarefa de arranjar uns cobres à custa da venda do Borda dÁgua!

Por uns instantes, amigo romeno, acho que não te sentiste borda fora dos dias.

Obrigado, Pavel Traian.

antónio colaço

 



publicado por animo às 12:01
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