Quarta-feira, 29 de Julho de 2009
AMAR SERAFÃO E DAR A CONHECER A SUA HISTÓRIA
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Pois bem, não acordem o menino, que é tão grande e está dormindo... Mando-te o texto produzido para o encontro de Serafonenses no qual estavam presentes algumas figuras conhecidas da nossa praça,vulgo de Serafão. Foi um encontro cordial e amistoso de velhos conterrâneoas ligados à causa pública, passada e presente. Abraços nossos para os vossos. Até breve

Joaquim Afonso

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ENCONTRO DE SERAFONENSES / JUVENTUDE DE SERAFÃO


 25 DE JULHO 2009 - EM SERAFÃO – FAFE


 Um simples contributo


 



Costuma-se dizer que ninguém é profeta na sua terra e com isto apenas quero dizer que não pretendo subtrair os profetas que ao longo dos tempos nos prometeram um mundo novo e não se aperceberam que o povo quer mesmo um mundo novo a sério.

Este encontro desejado e organizado por um grupo de serafonenses (ilustres), tenazes e de grande memória, traz consigo à luz muitas recordações singulares, humildes, gloriosas (e tenuamente épicas) de um passado já relativamente longínquo, mas genuíno e de grande significado local e regional e também as memórias mais recentes – um desafio para uma terra nova, uma aldeia nova, uma vila nova, que desde tempos idos e difíceis foi sonhada por jovens e adultos simples, corajosos e destemidos desta laboriosa terra – não tempos de leite e mel, que também o havia, mas de fel e sacrifício, (que o digam os nossos entes queridos já idos se a voz o tempo não apagasse e os pais daqueles que têm a sorte de contemplar os seus filhos).

serafão6


Alunos da EB1 .Pode saber mais aqui!



Esta terra, terra de Serafão, cheia de tradições, odores e beleza, não a das estátuas esculpidas pela arte e engenho humano ou génio de um artista, mas a beleza simples e original do campo e das pessoas, herdeiras de uma memória colectiva e prenúncio (fecundo) de prosperidade futura.

O que é hoje, Serafão? Contraste radicalmente com o seu passado arcaico, rural, semi-conservador e artesanal, dividido entre o respeito e o medo, entre o profano e o sagrado, … muito submetido às leis naturais e aos rituais cíclicos da vida, imposições políticas, religiosas e sociais na sua globalidade, não obstante, se distinguir gente anónima, homens e mulheres de grande mérito, prestígio e bravura tal, que mereceram no passado e continuam a merecer hoje, justamente, a nossa distinção, respeito e perpetuidade, as quais me escuso de mencionar neste momento, mas que quero destacar nesta ocasião.

Encontro de Serafonenses versus encontro da juventude de Serafão. Mas que juventude de Serafão?  

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Um importante achado arqueológico



No passado Serafão – Cellafano – Cellafão – Cerafão -  (nome que remonta às origens ou talvez mesmo antes da fundação da nacionalidade portuguesa), uma terra às escuras, abandonada pelo poder político, com  aglomerados populacionais dispersos, que mal constava nos mapas regionais e nos mapas de Portugal, nos anais de um povo, nos roteiros turísticos pelo seu ruralismo primitivo e natural, de caminhos tortuosos e íngremes, um verdadeiro paraíso ecológico, um povo simples, uma comunidade trabalhadora na faina do linho e do azeite, do milho e do centeio ( que gritem os moinhos desactivadas pelo progresso contemporâneo e as tecnologias), da batata e dos legumes, do feijão e do vinho, da água repartida segundo regras antigas, da propriedade de subsistência, do ferreiro e do sapateiro, do barbeiro e do pedreiro, do carpinteiro e do comerciante, do proprietário, do caseiro e do jornaleiro, do cesteiro e da tecedeira, da costureira e do alfaiate, do pastor e do mineiro, do moleiro, do carteiro/carteira, dos estudantes e jovens, do cantadores e tocadores populares, dum regime comunitário singular, dos emigrantes e tantos oriundos desta terra que nunca renegaram o seu berço, da guerra indesejada e servil, da religiosidade popular, da alegria das lavradas de Maio e das ceifas e vindimas de Outono – tão poéticas e ao mesmo tempo tão dramáticas – das estações do ano sempre renovadas e viçosas.

Falar de Serafão é falar da carta nunca recebida, do amigo ou parente distante, dos pais que amaram e amam os seus filhos, do moribundo agonizado, das promessas não cumpridas e (eternamente) adiadas, das calçadas cavadas pelos carros de bois chiando nas escarpas dos montes ou nos caminhos e quelhos tortuosos, do rio Torto – note-se a ironia – marco de um tempo - tão límpido, cristalino e fecundo no passado  e actualmente triste e moribundo – o rio da minha aldeia já não é o rio da minha aldeia - ( não é para ler -  quem nasce torto tarde ou nunca se endireita, diz o povo ), das casas simples e sombrias onde o conforto era uma utopia, das crianças tão precocemente condenadas à labuta, das mulheres tão prematuramente viúvas, das mães que nos ensinaram a valorizar o sonho, a rectidão, a dar valor ao trabalho, a enfrentar os desafios e a reconhecer as nossas raízes, a justiça, a religião, a determinação, a escutar e a ter gosto pela vida, do sofrimento, da solidariedade e particularmente da liberdade.

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É falar da sua igreja, das suas capelas, das festas e romarias e também das escolas, dos professores/professoras que heroicamente e com métodos considerados hoje pela pedagogia moderna menos adequados/ultrapassados, mas com muita dedicação e amor à causa, muito contribuíram para a nossa alfabetização e alicerces culturais.

É, enfim, recordar todos aqueles (homens e mulheres) que nos precederam e deram o seu contributo nas mais diversas actividades para o desenvolvimento social e cultural e progresso democrático.

Mas, é também falar do tempo em que não havia luz eléctrica, rádio, televisão, telefone, táxi, telemóvel, internet, televisão a cores e outros bens que tornam a vida actual mais fácil, da generosidade de quem contribuiu para erigir a cabine de Serafão, da candeia a petróleo ou a azeite como companhia nas noites de invernia apocalíptica, do telefone único e distante para a maioria das populações, do médico ausente e da saúde adiada, da ausência de comunicação e transporte, da falta de infra-estruturas básicas, de uma povoação quase isolada do seu concelho e distrito e do mundo em constante mutação.

É falar de um passado humilde de paz e harmonia, de inquietudes, sobressaltos, irreverências, incertezas, confrontos semi-pacíficos, incompreensões, de tensões e de revolta contra a injustiça e a dignidade humana, a opressão e a vassalagem e ao mesmo tempo de um desejo profundo de libertação, de emancipação e progresso.

É, por fim, falar do futuro que já foi ontem e continua a ser hoje “ in aeternum”.

Beneficiamos actualmente das mínimas infra-estruturas( básicas) essenciais, de casas e habitações mais confortáveis e modernas, pese embora alguma descaracterização paisagística, de acessibilidades mais capazes embora insuficientes, de assistência médica generalizada, de acesso ao ensino e à cultura, veja-se a internet e a televisão, (nunca antes imaginada), ao desporto e ao lazer, etc, mas ainda há muito caminho a percorrer (a fazer). Banir discrepâncias e assimetrias sobretudo a nível dos menos beneficiados, zelar pela segurança e bem-estar das crianças e dos mais velhos e aproximar mais e melhor os cidadãos de causas que promovam o bem comum e o progressivo desenvolvimento desta terra.

Unir esforços para legar uma herança honrosa às gerações futuras.

Folheando alguns documentos das minhas memórias e não sou a melhor memória desta terra, considero importante realçar o contributo de todos aqueles rapazes e raparigas, homens e mulheres deste quinhão, uns morando cá, outros dispersos por vilas e cidades de Portugal, outros emigrados em países estrangeiros levados não pela aventura, mas pela penúria, pela fuga à guerra imposta, pelas precárias condições de vida, também eles eco e testemunho vivo desta terra, mãe e um pouco (paradoxalmente) madrasta.

Muitos episódios tenho guardados na minha memória e guardados estarão na vossa memória e na nossa história e na memória de muitos protagonistas anónimos, provavelmente aqui hoje presentes sem desejo e reivindicação de louvor, mas apenas por vontade de se reencontrarem na terra que os viu nascer e crescer e à qual estão unidos por laços de familiaridade, amizade e solidariedade.

 Um grande palco de grandes acções e emoções.

Quantos caminhos e quantos anos percorridos para hoje estarmos aqui! Quantas faces então jovens e belas e hoje mais matizadas e amadurecidas pelo tempo! Quantos filhos e quantos netos! Herdeiros vivos desta nobre terra encantadora…Quantas histórias por contar…

Os mais velhos têm o dever cívico de dar a conhecer e mostrar às gerações  vindouras o verdadeiro passado desta terra e dos entes que os antecederam. Não as quimeras e fantasias, mas a verdadeira história, já parcialmente contada em monografias e outras obras, mas sempre incompleta, aquela que nos caracteriza como povo, aquela que nos faz singulares, um povo chamado de Serafão e nos torna em muitos aspectos, únicos e peculiares no universo fafense.

Orgulho-me de Serafão e dos meus conterrâneos ou serafonense e agradeço o honroso convite feito pelo meu amigo e conterrâneo José Gonçalves (do Outeiro do Paço) e restante equipa e desejo a todos os presentes as maiores felicidades. Obrigado por esta oportunidade.

Viva Serafão! Viva o povo de Serafão!

Tenho dito.

Joaquim Afonso

vaz4a

 - Quim, Quim, conta-nos mais histórias assim!!! Oh! Agostinho Vaz, baixa aí o rádio, meu, vamos ouvir mais histórias do Quim!!!Mas...queremos histórias com fotografias maiores, pá!!! Estas foi uma senhora muito simpática lá da tua terra, Quim, que nos indicou o site!!! Bota aí umas foto de jeito da tua terra!!!!


publicado por animo às 11:18
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